Perdido na Metrópole - Parte XLVI
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Quando retornei à metrópole e surgiu este personagem que vos escreve, que na realidade sou eu mesmo, escolhi o centro da cidade por morada. São Paulo é gigantesca. Mas, foi aqui na avenida São João, após um exílio depressivo de dez anos que me fez pensar em desistir de tudo e que meu futuro era a reclusão eterna, que reencontrei meu caminho.
Foi uma escolha forçosamente natural. O escritório da banda Yslauss, da qual fui assessor de imprensa, é bem próximo. “Morei” em alguns hotéis da avenida Rio Branco por três ou quatro meses até fixar residência em minha atual kitchenette amada, idolatrada, salve, salve! Contingências! Habito em um apertamento sobre o elevado Costa e Silva, “carinhosamente” conhecido por Minhocão.
Cheguei neste cafofo-lar sem a mínima idéia do que era morar sozinho, perdido, perdido na metrópole. Deixei meus pais no interior do estado e a aventura começou. Aos trancos e barrancos aprendi a sobreviver, antes tarde do que nunca. Livre de interferências, construí, entres estas quatro paredes, um império... O império da liberdade, um lugar só meu, todinho meu. Pintei, decorei agitei tudo a meu gosto, como sempre sonhei. Quem manda aqui sou eu! Aqui administro minha volta ao mundo, o resgate de tudo que julgava perdido em todos os campos. Se este apartamento falasse! Ahh meu Deus!
E foi este local, o centro de São Paulo, achincalhado por tudo e por todos, por vezes considerado um antro de perdição e periculosidade, com sua gente simples, multifacetada, que me acolheu e permanece de braços abertos.
Não é o lugar mais tranqüilo e seguro da cidade, admito. Mas, convenhamos, também não é um campo minado. Bin Laden não é meu vizinho, pelo menos que eu saiba.
Muito se fala na revitalização do centro, entretanto, na prática muito pouco foi feito. Por que? O que menos falta por aqui é vida. É insano e hipócrita formularem campanhas de marketing para mudar um conceito arraigado na mídia e conseqüentemente na cabeça da população, quando a cada esquina deparamos com uma criança, a luz do dia, cheirando cola. Quando centenas de cidadãos, excluídos socialmente, dormem nas calçadas, ao relento.
Em contrapartida, o centro histórico, como aconteceu comigo, renasce das cinzas dia após dia. Não por ações politiqueiras, mas por mérito, por carência. Através de ações simples, sementes de efeitos multiplicadores irreversíveis, plantadas com muito carinho por aqueles que amam este recanto, residem ou, trabalham na região. Este é o coração de uma metrópole de quinze milhões de habitantes.
Alguns amigos que moram em outros bairros de melhor fama entram em pânico quando são obrigados a vir para cá. Contratam uma escolta do FBI, e mesmo assim permanecem temerosos. Compreendo. Nasci em São Paulo, vivi em outros bairros e partilhava da mesma idéia. Todavia, conceitos e valores existem para serem revistos de quando em quando.
Ontem mesmo, precisei ir à rua Barão de Itapetininga no meio da tarde. Sobrevivi.
Devo considerar que as madrugadas por estes lados são complicadas, acontece de tudo, mas não é exclusividade nossa.
Já fui assaltado. Um rapaz levou meus últimos R$16,00. Circulava as duas da manhã onde não devia. Estava no lugar errado, na hora errada. Aconteceu! O sujeito até que foi “simpático”. Não quis o meu celular-tijolo, perguntou até a marca do aparelho antes de desprezá-lo. Fiquei ofendido.
É aqui que está o sorriso escancarado do seu Santos, meu zelador, que com seu boooooom dia, alegra minhas manhãs. É aqui que está Liene, a comerciante informal, fã de Paulo Coelho com seu café com leite maravilhoso frente à Estação Julio Prestes. É aqui que encontro imigrantes de todos os cantos do planeta, integrados, cada um ao seu modo, a um modo de vida totalmente diverso de suas origens. É aqui que uma mulher, que nunca havia visto, um dia me parou e me disse... – O Senhor será feliz! Ela acertou.
É aqui que está a feira de artes da Praça da República aos domingos. É aqui que está o Centro Cultural Banco do Brasil, o Theatro Municipal, A Pinacoteca do Estado, A Sala São Paulo... A cultura, elitista ou não, permeia as entranhas deste conglomerado de concreto e de emoções.
Não era bairrista, hoje sou.
A mídia em geral e algumas pessoas têm atrapalhado minha campanha. Há dois anos venho convencendo minha mãe, há muito custo, que seu rebento pimpolho, agora desmamado (eu) está morando em um local seguro. No final do ano passado quando a visitei, meu discurso retrocedeu um bocado. Folheando um inocente jornal, que ela já havia lido antes de eu acordar, deparei com a seguinte manchete: Cabeleireira esquartejada pelo marido na São João. Todo o meu trabalho caiu por terra. Vocês conhecem preocupação de mãe? Não preciso gastar caracteres para explicar ou supor o que deve ter passado por sua cabeça materna.
Este assunto veio à baila, pois o país voltou a funcionar. O carnaval passou e o ano do calendário brasileiro começou. Deixei finalmente a clausura kitchenéttica dos últimos meses e voltei às ruas da minha metrópole e ao ritmo frenético das gravações da NETMUSIC – A sua TV de música na Internet. Feliz ano novo!
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* Silvio Alvarez é colunista, radialista, assessor de comunicação e artista plástico de colagem. Visite o blog do Perdido - perdidonametropole.zip.net
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