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Perdido na Metrópole - Parte XLVII

O que é depressão?
Já tive este treco, mas nem lembro bem do que se trata.
Aprendi na prática a administrá-la, driblá-la e esquecê-la nos recônditos do meu cérebro de três neurônios. Pensando assim, sou um Garrincha mental. Bailo, irreverente, em meio aos problemas um dia julgados insolúveis!

Todos, sem exceção, têm este poder natural de autocontrole, auto-superação. Presente Divino!

Não sou o superperdido! Muito menos tenho vocação para Santo! Longe disto. Mas, minha auto-estima implora que o diga: sou um craque nesta área e, sobretudo, modesto.

Quando passei a escrever semanalmente a crônica Perdido na Metrópole estava apenas iniciando um processo, ensaiando um renascimento. Hoje, mais de um ano depois, posso afirmar, convicto, que as fichas finalmente caíram... No orelhão da minha existência. Agora são cartões com créditos! Enfim...Caíram os créditos.

Morando sozinho na minha gigantesca kitchenette em plena gloriosa avenida São João, centro histórico de São Paulo, frente ao Genival, meu computador e fiel escudeiro, ouvindo o Adilsom, meu rádio bicho grilo vidrado em MPB, volto a dissecar minhas agruras cotidianas.

Como colunista, recebo centenas de mensagens todos os dias na “Caixa de Pandora” que é meu Outlook Express. Assessores de imprensa enviam suas sugestões de pauta. Devo admitir que é impossível ler tudo. Entretanto, alguns releases chamam mais minha atenção. Recebo textos sobre toda a sorte de assuntos! Fui convidado, certo dia, para experimentar alguns esportes radicais. Recusei radicalmente!

Aceitei, todavia, um convite da empresa de turismo receptivo Circuito São Paulo, para participar, com outros representantes da mídia, de um passeio denominado “Túnel do Tempo”. Confirmei presença, devo admitir, sem saber muito bem do que se tratava e ainda levei uma “amiga-cobaia”, Ana Lúcia, assistente do empresário da Banda das Velhas Virgens.

Sábado ensolarado! Dia perfeito. O ponto de partida foi o Paraíso, o bairro. Quando cheguei ao hotel, grid de largada da aventura, esbaforido e atrasado, todos, prontos para sair, ouviam as explicações prévias do diretor da empresa. Para variar, atrapalhado como sempre, escolhi um cantinho “discreto” para ouvir o homem. Não percebi que estava próximo a uma daquelas portas mágicas que abrem quando nos aproximamos delas. Como estava de costas para a dita cuja, não notei que a tecnológica geringonça abria e fechava freneticamente sem cessar por minha causa. Dei uma de “mané” e o fato passou batido. Espero.

Embarcamos em um daqueles ônibus “ei você aí embaixo!”, alto e magnânimo. O tour teve início, com direito a serviço de bordo. A guia Cristina, extremamente simpática e articulada, disparou minúcias sobre tudo o que observávamos lá de cima. Nem notei que estava em minha própria cidade. Pensei. Eu também penso! Passo batido por estes locais todos os dias e nunca atentei para os incontáveis detalhes descritos pela gabaritada profissional, desprovida da tecla pause. Ela não parava de falar mais. O assunto era interessantíssimo, porém deveria ter levado um gravador. Meus parcos neurônios não captaram nem a metade.

“Conhecemos” o Bairro da Liberdade, entramos na Catedral da Sé, repleta de gente e bem no início de uma missa em homenagem à Virgem Maria. Na famosa praça de fronte à catedral, o retrato multifacetado da minha querida metrópole. Ao som de Sandy e Júnior pirata, cercada por ambulantes, Cristina descrevia os pormenores da imponente cúpula e explicava o porquê dela ser verde. Alguém arriscou responder com uma cínica e irreverente pergunta. – Por que acabou a tinta azul? Não. Porque ela é de cobre e este metal adquire esta cor com o tempo. Explicado.

Como não sou da realeza de país nórdico, a prefeitura deixou a localidade sem maquiagem. História e realidade integradas. Perfeito. A partir daí surgiu o diferencial do projeto “Túnel do Tempo”: atores caracterizados de Marquesa de Santos, Padre Anchieta e Carlos Gomes contaram um pouco de seu envolvimento histórico-paulistano e descreveram, encarnados, o que viveram nos lugarejos em questão.

Um passarinho verde me contou que, certa vez, um pedinte abordou a Marquesa de Santos no momento da apresentação. Devido a uma chuva repentina, fato raro nesta cidade, Carlos Gomes não pôde conversar conosco em frente ao Theatro Municipal. Veio falar dentro do ônibus mesmo. Na volta, José de Anchieta, na realidade o professor-poeta Nivaldo, coordenou a entrega de lanches e declamou, fechando com chave de ouro uma das mais ricas experiências vividas por este que vos escreve. Em versos, constatou o que todos nós já sabíamos, mas cegos e insensíveis, relegamos. Na correria desenfreada do dia-a-dia, vemos, mas não enxergamos, a real beleza da nossa metrópole e que São Paulo é e sempre será um resumo do mundo.

Ilustração: Bruno César


 
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* Silvio Alvarez é colunista, radialista, assessor de comunicação e artista plástico de colagem. Visite o blog do Perdido - perdidonametropole.zip.net

Silvio Alvarez

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